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10.1.11

Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem

Após assistir ao filme, resolvi reler o livro Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, um romance que faz intensas críticas aos valores impostos pela sociedade, e nos faz enxergar nos colocando em dúvidas se situados em meio a uma situação de caos.

A obra inicia-se com uma situação típica, um cidadão com seu carro em um farol vermelho; porém no segundo parágrafo, nos deparamos com o grito do personagem: “Estou cego!”.

O discurso do autor, com poucos pontos e muitas vírgulas faz com que a leitura seja corrente e nos remete a uma situação de mudanças rápidas. A cegueira, a princípio, está somente no homem do carro, mas pouco a pouco a cidade é tomada por uma epidemia de cegueira branca, sim, branca como leite, como descrevem as personagens.

Em meio ao caos, o governo decide agir, e as pessoas infectadas são encaminhadas a um manicômio e colocadas em quarentena. Os recursos disponibilizados são limitados e instigam as características mais primitivas do ser humano.

O autor não faz distinção das personagens por nomes, ele as difere através de características individuais, sendo as principais: o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, o médico, a mulher do médico (a única que não é afetada durante toda a obra), a rapariga de óculos, o velho com a venda no olho e o rapazinho estrábico, e ao longo da obra, outras vão surgindo, sendo personagens secundárias como o cego da pistola, o cego que escreve e braile, o ladrão, os soldados, a velha do primeiro andar, e, por fim, o cão.

Ensaio sobre a cegueira desperta no leitor o instinto de enxergar, e faz com que as pessoas deem valor a tudo que seja mais simples na vida, por exemplo, um banho de chuva.

A esposa do médico, a única que tem a visão preservada, começa a valorizar tudo o que há ao seu redor, e em um dado momento, não se sabe se ela é abençoada ou amaldiçoada por ter o poder da visão.

A audição dos demais é aguçada por meio de um rádio de pilhas que o cego da venda no olho possui, e através das ondas sonoras são narrados os fatos que se passam fora do manicômio.

Passo que a cidade é tomada por tamanha epidemia, os cegos do manicômio passam por grande dificuldade, pois a comida fica cada vez mais escassa e passam a viver em meio à putrefação do ambiente, pois não possuem recursos cabíveis para a limpeza e organização, até porque, somente uma pessoa enxerga no meio deles – a mulher do médico.

O manicômio é incendiado, e as personagens principais conseguem sair rumo à cidade, que já não é mais uma sociedade, apresenta pessoas com instintos animais, colocando o leitor em dúvida do que realmente somos no meio em que vivemos.

Saramago mostra, através desta intensa obra as necessidades humanas, apresentando a incapacidade de vivermos em meio ao abandono e realçando a necessidade de vivermos um com o outro, sempre precisando do auxílio de outrem.

Refletimos então, após a leitura dessa obra, que a moral, a ética e os costumes seguem de acordo com os olhos daquele que vê, pois muitas situações são inadmissíveis ao longo da narrativa.

Conforme o autor:
Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto quanto eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.

Ao final da obra muitos instintos nos são despertados, princialmente o ato de enxergar, então: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” – José Saramago.

2 comentários:

Bruno Carvalho disse...

Expressa muito bem informações sobre a obra de Saramago. Também há muito o que relacionar com seu blog, visto que a obra traça um paralelo semântico entre VER e ENXERGAR.

Felipe disse...

Como já lhe disse gostei muito da linha adotada pelo blog e este post continua a série de Ver e Enxergar, o que é muito interessante considerando o nível da obra que serve de base para ele.

Vou tentar rever o filme e quem sabe ler o livro e tentar reparar em detalhes que eu talvez não tenha visto.

Obrigado!

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