RSS

5.2.11

Sawabona Shikoba

Por Flávio Gikovate*

 
Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o início deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito amor.

O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem estar. A ideia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa metade para nos sentirmos completos.

Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino. A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma ideia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.

A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo.

Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.

O homem é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com o egoísmo.

O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.

A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.

A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.

Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.

Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem sem encontradas dentro dele mesmo e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém. Algumas vezes temos de aprendera nos perdoar a nós mesmos...

Caso tenha ficado curioso em saber o significado de Sawabona, é um crumpimento usado no sul da África quer dizer: “Eu te respeito, eu te valorizo você é importante para mim”.

Em resposta as pessoas deizem: “Shikoba” – “Então eu existo pra você!”.

Flávio Gikovate* é psicólogo e escritor. Autor de flaviogikovate.com.br
http://www.flaviogikovate.com.br/

15.1.11

Da capacidade de aprendizado e compreensão nos seres vivos

Por Felipe Guedes*

Sendo Biólogo algumas vezes questionei-me qual é a grande diferença entre os seres humanos e os demais seres vivos, e, certa vez me deparei com três afirmações muito tristes para nós seres humanos. Conhecidas como as três feridas narcísicas do homem, são elas:

1º   Pensávamos que éramos o centro do Universo e, então, Nicolau Copérnico descobriu que estamos em um local qualquer deste girando em torno de uma estrela comum;

2º   Achávamos que somos uma criação especial de Deus e, sendo assim, pertencíamos a uma classe especial de seres, logo, Charles Darwin relegou nossa criação ao advento aleatório da evolução;

3º   Acreditávamos sermos donos de nossa racionalidade, até que, surge Sigmund Freud deixando nosso ego num canto escuro de nossa mente, à mercê de outros dois monstros desconhecidos e controladores de nós mesmos, o id e o superego.

Dessa forma, que devemos fazer? Sentarmos e esperarmos a vida transcorrer lentamente a nossa frente sem reação alguma, pois não somos dotados de nada de especial? Não somos o centro do Universo, não somos seres criados acima de todos os outros e nem ao menos controlamos a nossa própria mente. Mas estudando a fundo tudo o que aconteceu desde o princípio até os dias de hoje, somos capazes de perceber algo de diferente em nós e que talvez possa consolar-nos.

No princípio nada existia e uma escuridão cobria o Universo. Essa história não é bíblica, mas também está lá.

Antes de tudo começar não havia nada (é claro!), e num momento incrível, cerca de 13,7 bilhões de anos atrás surgiu a luz, uma grande iluminação, a qual nós cientistas preferimos chamar de Big Bang, ou Grande Expansão. Diante disso, a formação do Universo ocorre diariamente por meio de átomos, partículas, forças, estrelas, galáxias, planetas, entre outros.

Numa dessas galáxias se formou nosso formoso e atualmente líquido planeta, o qual estranhamente se chama Terra, e por um longo período nenhum ser vivo existiu. Em dado momento, quando já havia condições suficientes, a vida surgiu incrivelmente por meio de um grupo de primatas ancestrais, chamados, atualmente, de Homo sapiens, seguindo uma história por mais 4,6 bilhões de anos. Entretanto, a vida humana despontou no último momento de toda história da Terra, quiçá do Universo e ainda assim cremos que temos algo de especial, e, devemos ter mesmo, pois entramos numa partida que já parecia finalizada, nesse sentido, isso é especial.

Essa longa história serve para entendermos nossa presença aqui como algo fortuito, resultado de um processo longo em que somos coadjuvantes e em que os outros atores possuem muitas das capacidades que temos. Sabemos que outros animais constroem, por exemplo, os castores (que produzem diques), o joão-de-barro (que constrói a própria casa), aranhas (que produzem teias), entre outros. Temos ainda, os animais se comunicam, um modelo são as formigas (que trocam sinais), os felinos (que rugem), sem nos esquecer dos primatas (que emitem diversos sons). Sendo assim, afirmamos que vivemos num espetáculo tão grandioso, com tantos atores capazes, questiono: qual será o nosso papel?

Antropólogos, sociólogos e etólogos (biólogos que estudam o comportamento animal), discutem infindavelmente sobre qual a grande diferença do homem em relação aos outros seres e cada um defende seu argumento deixando sem margem para discussão. O fato concreto é que diversos animais são capazes de pensar, de se comunicar, de aprender, mas quantos deles compreendem que pensam, comunicam e aprendem?

Até onde sabemos a resposta para essa pergunta é: nenhum!

Fatalmente somos os únicos seres que temos a noção exata do que fazemos, uma vez que conceituamos o que criamos, criticamos as criações, refazemos e recriamos. Esse deve ser o ponto fundamental de discussão destes fatos, a compreensão que temos da nossa existência.

É pena que a maioria das pessoas apenas entendam que existam, mas é de grande valia que tenham existido alguns pensadores como René Descartes que tenham cunhado frases emblemáticas para a compreensão de nós mesmos, como a famosa: “penso, logo existo”.

Nossa evolução como seres vivos foi uma jornada longa e que ainda tem muito pela frente. Na maior parte das coisas que gostaríamos de ser especiais, não o somos. Mas talvez naquilo que seja a coisa mais bela que existe na humanidade temos a única oportunidade de melhorar o mundo a cada dia: a compreensão!


Felipe Guedes* é professor e biólogo.