Por Felipe Guedes*
Sendo Biólogo algumas vezes questionei-me qual é a grande diferença entre os seres humanos e os demais seres vivos, e, certa vez me deparei com três afirmações muito tristes para nós seres humanos. Conhecidas como as três feridas narcísicas do homem, são elas:
1º Pensávamos que éramos o centro do Universo e, então, Nicolau Copérnico descobriu que estamos em um local qualquer deste girando em torno de uma estrela comum;
2º Achávamos que somos uma criação especial de Deus e, sendo assim, pertencíamos a uma classe especial de seres, logo, Charles Darwin relegou nossa criação ao advento aleatório da evolução;
3º Acreditávamos sermos donos de nossa racionalidade, até que, surge Sigmund Freud deixando nosso ego num canto escuro de nossa mente, à mercê de outros dois monstros desconhecidos e controladores de nós mesmos, o id e o superego.
Dessa forma, que devemos fazer? Sentarmos e esperarmos a vida transcorrer lentamente a nossa frente sem reação alguma, pois não somos dotados de nada de especial? Não somos o centro do Universo, não somos seres criados acima de todos os outros e nem ao menos controlamos a nossa própria mente. Mas estudando a fundo tudo o que aconteceu desde o princípio até os dias de hoje, somos capazes de perceber algo de diferente em nós e que talvez possa consolar-nos.
No princípio nada existia e uma escuridão cobria o Universo. Essa história não é bíblica, mas também está lá.
Antes de tudo começar não havia nada (é claro!), e num momento incrível, cerca de 13,7 bilhões de anos atrás surgiu a luz, uma grande iluminação, a qual nós cientistas preferimos chamar de Big Bang, ou Grande Expansão. Diante disso, a formação do Universo ocorre diariamente por meio de átomos, partículas, forças, estrelas, galáxias, planetas, entre outros.
Numa dessas galáxias se formou nosso formoso e atualmente líquido planeta, o qual estranhamente se chama Terra, e por um longo período nenhum ser vivo existiu. Em dado momento, quando já havia condições suficientes, a vida surgiu incrivelmente por meio de um grupo de primatas ancestrais, chamados, atualmente, de Homo sapiens, seguindo uma história por mais 4,6 bilhões de anos. Entretanto, a vida humana despontou no último momento de toda história da Terra, quiçá do Universo e ainda assim cremos que temos algo de especial, e, devemos ter mesmo, pois entramos numa partida que já parecia finalizada, nesse sentido, isso é especial.
Essa longa história serve para entendermos nossa presença aqui como algo fortuito, resultado de um processo longo em que somos coadjuvantes e em que os outros atores possuem muitas das capacidades que temos. Sabemos que outros animais constroem, por exemplo, os castores (que produzem diques), o joão-de-barro (que constrói a própria casa), aranhas (que produzem teias), entre outros. Temos ainda, os animais se comunicam, um modelo são as formigas (que trocam sinais), os felinos (que rugem), sem nos esquecer dos primatas (que emitem diversos sons). Sendo assim, afirmamos que vivemos num espetáculo tão grandioso, com tantos atores capazes, questiono: qual será o nosso papel?
Antropólogos, sociólogos e etólogos (biólogos que estudam o comportamento animal), discutem infindavelmente sobre qual a grande diferença do homem em relação aos outros seres e cada um defende seu argumento deixando sem margem para discussão. O fato concreto é que diversos animais são capazes de pensar, de se comunicar, de aprender, mas quantos deles compreendem que pensam, comunicam e aprendem?
Até onde sabemos a resposta para essa pergunta é: nenhum!
Fatalmente somos os únicos seres que temos a noção exata do que fazemos, uma vez que conceituamos o que criamos, criticamos as criações, refazemos e recriamos. Esse deve ser o ponto fundamental de discussão destes fatos, a compreensão que temos da nossa existência.
É pena que a maioria das pessoas apenas entendam que existam, mas é de grande valia que tenham existido alguns pensadores como René Descartes que tenham cunhado frases emblemáticas para a compreensão de nós mesmos, como a famosa: “penso, logo existo”.
Nossa evolução como seres vivos foi uma jornada longa e que ainda tem muito pela frente. Na maior parte das coisas que gostaríamos de ser especiais, não o somos. Mas talvez naquilo que seja a coisa mais bela que existe na humanidade temos a única oportunidade de melhorar o mundo a cada dia: a compreensão!
Felipe Guedes* é professor e biólogo.





